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A MENINA QUE NÃO SABIA LER

15 fevereiro 2014

A menina que não sabia ler
John Harding
Editora Leya
220 páginas

Sinopse: 1891. Nova Inglaterra. Em uma distante e decadente mansão, onde nada é o que parece, dois irmãos são negligenciados pelo seu tutor e tio. A jovem Florence, de apenas 12 anos, passa os dias cuidando de seu irmão mais novo Giles e perambulando pelos corredores, em uma rotina tediosa e desinteressante. Até que, um dia, a menina encontra uma biblioteca proibida da mansão, e apaixona-se por ela.

Mas existem segredos sombrios naquela casa que jamais deveriam ser revelados. Por que Florence sempre sonha com uma misteriosa mulher que insiste em ameaçar seu irmão? O que esconde a nova preceptora? E por que o tio não permite que ela aprenda a ler? Florence precisa encontrar muitas respostas sejam elas inventadas ou não, e soluções nem sempre fáceis para proteger Giles, e o seu amor pelos livros, antes que alguém descubra quem ousou abrir as portas do mundo literário.

Temos dois irmãos muito unidos, ou melhor, meio irmãos. Florence de 11 anos perdeu a mãe muito cedo e seu pai casou novamente, com a nova esposa teve um filho Giles, então o casal morreu. Assim, as crianças passaram a ser responsabilidade de um tio que não queria saber de absolutamente nada sobre elas, deixando-as sobre os cuidados dos empregados da mansão Blithe e, segundo Florence a mansão “tem dois corações, um quente e um frio; um iluminado, outro sombrio mesmo no dia mais ensolarado.” P.12 Do coração quente faz parte a cozinha da cozinheira Meg e o escritório da governanta Grousse. Do coração frio faz parte a biblioteca, isto para as outras pessoas não para Florence que a considera quente e viva. Na concepção dela a biblioteca é mal amada por todos, mas não por ela. Lá não tem lareira, tem muita poeira, é escura e vive trancada, mas foi descoberta por Florence em uma de suas andanças e das brincadeiras de esconde-esconde com o irmão, “para me esconder dele descobri este imenso tesouro de palavras” p.12 e mesmo não sabendo ler ou exatamente por isso ficou maravilhada com tudo que encontrara.

O tio tutor ordenara que Giles fosse alfabetizado e Florence não e só descobriremos a razão dessa atrocidade muito mais para frente. O que fez um homem que sempre estimulou homens e mulheres a buscarem conhecimento a fazer tal pedido?

Certa vez Florence pediu a governanta que a ensinasse a ler e como esta simplesmente perguntara de onde vinha tal ideia, Florence se cala por acreditar que se respondesse viriam outras perguntas, pois é assim que os adultos fazem. “mas sua recusa em me ajudar, longe de me desencorajar, foi o oposto e apenas estimulou minha determinação. Lentamente, e com alguma dificuldade, aprendi a ler sozinha. Ficava na cozinha e roubava letras de John (John era um empregado da mansão) enquanto ele estava lendo o jornal. Apontava para um “s” ou um “b” e perguntava a ele qual era o som. Um dia, na biblioteca, tive a sorte de encontrar uma cartilha de criança e, partir daí e daqui e dali, acabei decifrando o código” p.13.
Pessoas queridas, não pensem que liberei um grande spoiler, não é, fiquem tranquilos, pois o cerne da questão não é Florence não saber ler, até porque ela aprende e para não arrumar encrenca para si e para a governanta, precisa fingir que não sabe ler. Assim, a menina que não tinha companhia começa a traçar “amizades” com as personagens dos livros e de certa forma viver seus dilemas. Com sua imaginação fértil e aguçada, a inteligente Florence tem como meta proteger o irmão contra perigos que à vezes pensamos serem apenas fruto de sua mente e todos realmente acham isto, até que episódios macabros começam a acontecer, sonhos premonitórios com Giles que fora mandado para uma escola para meninos em outra cidade e agora ela está praticamente sozinha na mansão, não tem com quem brincar e o que lhe resta são as fugas para a biblioteca que amenizam os seus dias. “Durante toda a nossa vida, Giles e eu nunca tínhamos nos separado; era como se eu estivesse sem uma parte de mim. Eu compreendia suas falhas e o amava por elas” p.17.

Assim, Florence conhece Shakespeare, Romeu e Julieta, ficou com medo de Otelo, aterrorizada com Macbeth, amou Hamlet. Em alguns momentos temos cenas engraçadas com nossa protagonista e o jovem Theo Van Hoosier, um garoto que tem asma e algumas vezes precisa sair de Nova York e ir para a casa de campo perto da de Florence, apesar de acha-lo chato no começo por tira-la dos livros, acaba por gostar das visitas e da companhia de Theo.

Florence se entristece quando Theo, juntamente com família tem que retornar à Nova York, mas logo se alegra quando Giles retorna para casa e por alguns problemas não voltará mais para o colégio interno, terá que seguir com os estudos em casa e sendo assim precisará de uma nova preceptora.

Algumas mudanças começam a acontecer, Florence começa a ter pesadelos frequentes, sonambulismo, além sua realidade se mesclando com o que lê nos livros, ela que sempre tivera total liberdade na casa e a companhia constante do irmão se vê as voltas com regras impostas pela nova preceptora de Giles, Srta Taylor que dá atenção até demais ao garoto e por alguma razão deixa Florence ir à biblioteca e ler escondido dos empregados, isto terá um preço?

Em meio a tanto tempo livre Florence começa a desvendar alguns segredos da sua família guardados a sete chaves, questiona a presença e influência massiva da Srta Taylor sobre Giles, desconfia dela e a vê como uma sinistra ameaça. Será fruto da imaginação fértil de Florence? Que guerra travará estas duas mulheres?

Comecei a ler este livro despretensiosamente, a estória é bastante envolvente, a leitura é rápida, mas tem episódios mórbidos e até macabros, fato que deve agradar leitores que gostam destes temas, confesso que não gosto e, principalmente em se tratando do envolvimento de uma criança que está disposta a fazer qualquer coisa para proteger seus inestimáveis tesouros.

A estória é narrada em primeira pessoa na voz e na perspectiva de Florence, assim por termos unicamente a versão dela ficam muitas questões sem respostas e não sei se esta era realmente a intenção do autor. Não se iluda pela capa “bonitinha” quase singela, ela não reflete a essência macabra da segunda parte do livro, aliás, a menina sabia ler e não é esta a questão central do livro e sim outras bem mais profundas e por vezes amedrontadoras. Senti-me enganada, pois desejava ler algo mais leve e relaxante, mas enfim coisas de editora para vender mais, fazer o quê!

Apesar de me sentir estranhamente incomodada com os detalhes de algumas narrações que chegaram a me chocar, o livro serve para refletir um pouco sobre o universo de uma criança abandonada e o que o acesso total ao conhecimento uma só vez pode provocar em alguém ainda sem maturidade que não tem com quem compartilhar suas impressões, sensações e medos.

Enfim, para quem gosta de romance gótico está indicado, mas fica o alerta não vá pela capa (risos). Boa leitura!


Beijos assombrosos!!!! Ah Uh!! Glup glup!!

Tânia Bueno

16 comentários:

  1. Eu amo esse livro simplesmente,também fiz um resenha no meu blog kkk
    Fiquei um bom tempo meditando na motivação de Flo,tenho certeza que ela possuía alguma doença! Ótimo texto ♥
    beijos
    http://imemoriavel.blogspot.com.br/

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    1. Verdade Dany, a Flo deve ter algum comprometimento psíquico. Bjs

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  2. Olá Tania,
    Primeira vez por aqui e já adorei. Li a Menina que não sabia ler há um bom tempo tempo atrás. Lembro que na época gostei da leitura, mas sim a história é bem macabra. Ótima resenha.

    Lucas - Carpe Liber
    http://livrosecontos.blogspot.com.br/

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  3. Olá Tania,
    Minha primeira vez por aqui e já adorei. Quando li "A menina que não sabia ler" achei bem legal, mas isso já tem um tempinho. E a história é bem macabra mesmo e mexe com a cabeça do leitor, questionando se concorda com tudo que Florence diz. Ótima resenha!

    Lucas - Carpe Liber
    http://livrosecontos.blogspot.com.br/

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    1. Oi Lucas, obrigada pela visita e seja bem vindo! Você tem razão eu fiquei um tanto chocada com as decisões de Florence. Abs

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  4. Olá
    Eu não tinha interesse nenhum nesse livro, mas depois que li que ele tem momentos macabros me interessei. Acho muito bacana quando histórias aparentemente "simples" abordam essa temática. Pena que é em primeira pessoa, as vezes eu tenho um sério problema com esse tipo de narrativa! No mais, não irei pela capa haha

    Abraços!
    www.umomt.com

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  5. Oi Tania!
    Eu já li essa obra e assim como vc alguns pontos me incomodaram! Eu gostei no geral, é um livro bom, mas não gostei do final! Não gostei do que aconteceu e preferia a outra alternativa! Se é que me entende! Espera mais!
    Boa resenha lindona!
    Beijos

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  6. Só li um romance gótico na minha vida, e odiei com todas as minhas forças. Eu com certeza iria pela capa se não fosse o seu alerta! rs... Mas agora que fui avisada, vou passar longe, já que também não gosto nem um pouco de episódios mórbidos ou macabros.

    Beijo!

    Ju
    Entre Palcos e Livros

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  7. Oie Tania
    Já li alguns livros que ao decorrer da história acontecem essas situações macabras,
    e toda vez eu choro desesperadamente e não consigo aceitar isso. Eu gosto de histórias
    góticas, mas quando tem alguma violência contra criança eu não consigo ler. Pela capa nunca imaginaria algo tão macabro assim. Parabéns pela resenha.

    Beijos,
    Jéssica
    www.leitorasempre.com

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  8. Eu concordo com você, comprei pela capa leve, e a 'agressividade' do conteúdo realmente me surpreendeu! Mas no meu caso, eu gostei bastante, do tema e do devaneio!
    Eu li a entrevista que um blog fez com o escritor, e pelo que entendi a intenção dele foi realmente deixar alguns pontos em aberto... Me lembrou muito Dom Casmurro, em que você só tem um ponto de vista, completamente tendencioso! Mas ainda assim, as dicas que ele deixa fazem com que a gente fique com a pulga atras da orelha, né? Haha!

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  9. Oi Tania,
    tudo bem?
    Estava com saudades das suas resenhas. Eu já tinha visto esse livro, mas ele nunca chamou minha atenção. Gostei muito da história no início da sua resenha. Mas percebi que também não é o gênero que eu gosto de ler.
    Mas como sempre, gostei da sua resenha.
    beijinhos.
    cila-leitora voraz
    http://cantinhoparaleitura.blogspot.com.br/

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  10. Olá, faz tempo que vi esse livro, mas nunca cheguei de fato
    a ler alguma resenha dele, só lia criticas boas sobre ele.
    E me surpreendeu a sua resenha, os fatos que você citou,
    não imagina que fosse um livro tão intenso,
    bjs

    http://www.loveebookss.com.br/

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  11. Oi Tania.
    Esse é um livro que divide opiniões, já vi ele na promoção várias vezes mas sempre fico na dúvida.
    Eu penso exatamente como você, morbido e macabro não combinam com crianças, eu acharia a leitura muito pesada agora que sei desse fato.
    Nunca li nada gótico, mas como você já alertou para o choque em alguns acontecimentos, acho que esse não entra para os desejados rsrsrs.

    Até mais.
    Leituras da Paty

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  12. Uau!
    Fiquei sem ar!
    Adoro!
    Mesmo pensando que nem vc sobre o tema não combinar com criança eu adoro o tema.

    Bjs

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  13. Já peguei esse livro na biblioteca, mas até hoje não consegui ler. Sempre coloco outros como prioridade e esqueço dele, mas sério, depois dessa resenha fiquei muito curioso com o teor do livro e a história.
    Acho que vou pegar na biblioteca de novo! rsrs
    xoxo

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  14. Olá Tania...
    já tinha lido algumas resenhas do livro e tenho muita vontade de ler...
    Esse lado meio 'macabro' me encanta...rs'
    Em todas as resenhas não me recordo de ler essa espécie de guerra entre as duas que me fez querer ler ainda mais o livro...><'

    Beijos...=]
    http://ceciliabraz.blogspot.com.br/

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